O Dr. Paul Crones saiu da tenda atrás do estagiário, a pensar já em frases do tipo “desmancha-prazeres”. Sim, porque os rapazes também lhe tinham tirado o “prazer” de um boa noite de sono. Como era natural, estava bastante mais frio do que de dia, e do que no seu confortável saco-cama (apesar de não ser um contentor), o que lhe aumentou ainda mais a má disposição. Ainda por cima, com a pressão do estagiário (e, embora lhe custasse confessar, um pontinha de curiosidade) tinha-se esquecido de calçar algo, e enfrentava agora a gélida areia do deserto, aumentando a cada passo a sua má disposição. Caminhando, viu a abertura na rocha, que vinha sendo efectuada desde há um mês, sem qualquer tipo de surpresas. Rocha, rocha e mais rocha. Areia, areia e mais areia. Estava já enjoado de ver apenas areia. Os momentos mais interessantes eram quando iam à cidade comprar mantimentos, e interagiam com a população local.
Assim, ele não percebia o entusiasmo dos estagiários perante este cenário, a não ser pelo facto de se encontrarem na mística terra do Egipto. “Mas” pensou ele, “depressa irão perceber que a arqueologia não é aquilo que aparece nas histórias mirabolantes do universo do Indiana Jones. As descobertas fabulosas não acontecem todos os dias…”.
Na realidade, também ele tinha sido seduzido por essa ideia, e mais tarde desiludido pela realidade. Talvez tivesse um atenuante: o seu pai tinha falecido quando ele tinha apenas 2 anos. A sua mãe não voltou a casar, e ele “juntou” o facto de não ter um pai, ao facto de ficar todos os dias em casa entregue à televisão, enquanto a sua mãe lutava pela vida. Tinha ficado verdadeiramente fascinado pelo universo daquela personagem, tendo seguido assim, a carreira de arqueólogo, em busca de emoções mais fortes do que as sentidas em desportos radicais.
Paul entrou nas escavações atrás do estagiário, e, embora estivesse com uma disposição pouco recomendável, prestou especial atenção às paredes da escavação para averiguar das suas condições de segurança. Tranquilizado pelo que via, desceu um túnel escavado na rocha até uma pequena câmara escavada recentemente. Observou em redor e viu um grupo de estagiários debruçados sobre uma parede com pincéis nas mãos. Dirigiu-se até eles, afastando-os, ignorando os seus queixumes e olhou para a parede… Mas o que viu foi uma desilusão.
Na parede existia uma reentrância de forma ondulada e esguia, que poderia perfeitamente ter origem em causas naturais, ou poderia ser apenas um fóssil de algum réptil. No entanto, nada de extraordinário.
- Mas vocês são parvos? – Perguntou perante uma assistência com ar divertido. “Mas de que é que eles se estão a rir?” pensou. Uma estagiária respondeu-lhe ao afirmar:
- Professor, o que está à procura está do outro lado daquela passagem – disse, apontando para uma parede no seu lado direito. Paul olhou na direcção que ela apontava e viu uma passagem aberta na rocha, tão perfeita e extraordinariamente larga para ter sido feita em pouco tempo…
Lendo a cara de espanto na face do “Dr. Indiana”, a estagiária acrescentou:
- Não, não fomos nós que abrimos aquela passagem… apenas a localizámos e mal lhe acertámos com a picareta desmoronou-se por completo… mas vá até lá – a rapariga terminou a frase quase comovida.
Paul assim fez, e, atravessando a passagem através da qual via alguns estagiários atarefados, entrou numa nova câmara, larga mas pouco comprida. Os estagiários tinham instalado alguns holofotes que iluminavam algo que se situava no centro. E foi precisamente o que estava no centro, que tirou o fôlego a Paul, porque era algo que ele nunca esperaria encontrar no antigo Egipto.
Razão da minha ausência...
Há 11 anos
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