domingo, 29 de junho de 2008

Capítulo I - V e Última Parte

Num quarto, algures no Egipto, um telefone toca às 4h da manhã. Um quarto simples, apenas mobilado com uma cama e uma mesa-de-cabeceira onde se encontrava o telefone, mergulhado na penumbra da noite. Pilhas de roupa e revistas acumulavam-se no chão desta divisão. Um vulto movimenta-se no escuro e acende uma lâmpada fixada na parede, que revela um indivíduo com a pele queimada pelo sol, de olhos escuros, com várias cicatrizes no rosto, e barba por fazer há já vários dias.
Este atende imediatamente o telefone, sem mostrar sinais de estar aborrecido pela interrupção do seu sono. Antes dir-se-ia que aguardava este telefonema há já algum tempo.
- Estou sim.
- Estou Rastachin?
- Mestre? Nem acredito que o estou a ouvir! Não me diga que...
- Sim, infelizmente aconteceu – Rastachin não parecia lamentá-lo – E você, já sabe o que tem a fazer?
- Sim, vou para lá imediatamente.
- Espere...
- Sim? – Respondeu Rastachin, já impaciente.
- Antes de fazer aquilo para que foi contactado, há algo que tem que fazer antes...

Capítulo I - Parte IV

Leonel DuPont saiu da reunião com o estranho grupo com as ideias mais arrumadas. Havia que tomar decisões com vista a evitar uma autêntica catástrofe, segundo ele e os seus parceiros. Mesmo que estas decisões resultassem também em resultados menos positivos… “os fins justificam os meios”, pensou. Tinha sido convencido desta realidade, apesar de não concordar totalmente com ela… Mas se não havia outra alternativa, que poderia ele fazer?

Capítulo I - Parte III

O Dr. Paul Crones saiu da tenda atrás do estagiário, a pensar já em frases do tipo “desmancha-prazeres”. Sim, porque os rapazes também lhe tinham tirado o “prazer” de um boa noite de sono. Como era natural, estava bastante mais frio do que de dia, e do que no seu confortável saco-cama (apesar de não ser um contentor), o que lhe aumentou ainda mais a má disposição. Ainda por cima, com a pressão do estagiário (e, embora lhe custasse confessar, um pontinha de curiosidade) tinha-se esquecido de calçar algo, e enfrentava agora a gélida areia do deserto, aumentando a cada passo a sua má disposição. Caminhando, viu a abertura na rocha, que vinha sendo efectuada desde há um mês, sem qualquer tipo de surpresas. Rocha, rocha e mais rocha. Areia, areia e mais areia. Estava já enjoado de ver apenas areia. Os momentos mais interessantes eram quando iam à cidade comprar mantimentos, e interagiam com a população local.
Assim, ele não percebia o entusiasmo dos estagiários perante este cenário, a não ser pelo facto de se encontrarem na mística terra do Egipto. “Mas” pensou ele, “depressa irão perceber que a arqueologia não é aquilo que aparece nas histórias mirabolantes do universo do Indiana Jones. As descobertas fabulosas não acontecem todos os dias…”.
Na realidade, também ele tinha sido seduzido por essa ideia, e mais tarde desiludido pela realidade. Talvez tivesse um atenuante: o seu pai tinha falecido quando ele tinha apenas 2 anos. A sua mãe não voltou a casar, e ele “juntou” o facto de não ter um pai, ao facto de ficar todos os dias em casa entregue à televisão, enquanto a sua mãe lutava pela vida. Tinha ficado verdadeiramente fascinado pelo universo daquela personagem, tendo seguido assim, a carreira de arqueólogo, em busca de emoções mais fortes do que as sentidas em desportos radicais.
Paul entrou nas escavações atrás do estagiário, e, embora estivesse com uma disposição pouco recomendável, prestou especial atenção às paredes da escavação para averiguar das suas condições de segurança. Tranquilizado pelo que via, desceu um túnel escavado na rocha até uma pequena câmara escavada recentemente. Observou em redor e viu um grupo de estagiários debruçados sobre uma parede com pincéis nas mãos. Dirigiu-se até eles, afastando-os, ignorando os seus queixumes e olhou para a parede… Mas o que viu foi uma desilusão.
Na parede existia uma reentrância de forma ondulada e esguia, que poderia perfeitamente ter origem em causas naturais, ou poderia ser apenas um fóssil de algum réptil. No entanto, nada de extraordinário.
- Mas vocês são parvos? – Perguntou perante uma assistência com ar divertido. “Mas de que é que eles se estão a rir?” pensou. Uma estagiária respondeu-lhe ao afirmar:
- Professor, o que está à procura está do outro lado daquela passagem – disse, apontando para uma parede no seu lado direito. Paul olhou na direcção que ela apontava e viu uma passagem aberta na rocha, tão perfeita e extraordinariamente larga para ter sido feita em pouco tempo…
Lendo a cara de espanto na face do “Dr. Indiana”, a estagiária acrescentou:
- Não, não fomos nós que abrimos aquela passagem… apenas a localizámos e mal lhe acertámos com a picareta desmoronou-se por completo… mas vá até lá – a rapariga terminou a frase quase comovida.

Paul assim fez, e, atravessando a passagem através da qual via alguns estagiários atarefados, entrou numa nova câmara, larga mas pouco comprida. Os estagiários tinham instalado alguns holofotes que iluminavam algo que se situava no centro. E foi precisamente o que estava no centro, que tirou o fôlego a Paul, porque era algo que ele nunca esperaria encontrar no antigo Egipto.

Capítulo I - Parte II

Leonel DuPont, um homem de meia-idade, já com cabelos e barba grisalhos, Director do Museu do Louvre, em Paris, seguia no seu Peugeot topo de gama, em direcção ao Museu. Algo tinha dado alarme no escritório de sua casa à 1h da manhã. Quando descobriu do que se tratava, os seus piores receios confirmaram-se, e ele nem podia acreditar. Soube imediatamente o que devia fazer: deslocar-se ao Louvre, tal como outros indivíduos o fariam.
Estacionou o automóvel, nas traseiras do edifício e saiu, atravessando a chuva que caía, semelhante ao seu estado de espírito, de nervoso miudinho. Já outros automóveis, seus conhecidos, aí se encontravam.
Entrou no edifício e dirigiu-se mecanicamente (pois a sua mente encontrava-se ocupada a pensar no que ali o trouxera) para uma sala nos bastidores do museu.
Entrou numa sala de grande tamanho, decorada com esculturas e ornamentações de madeira nas paredes, e uma lareira a crepitar na parede do fundo. As esculturas consistiam em formas ondulantes, esguias, parecendo, por um truque de ilusão de óptica, estarem em movimento.
No centro, estava disposta uma enorme mesa, também de madeira, e nela sentados vários indivíduos, onde apenas uma lugar estava disponível: o lugar de DuPont. Estes indivíduos, cuja silhueta era o único traço visível na penumbra da sala, cumprimentaram DuPont numa estranha língua. Cumprimento que este retribui na mesma e estranha língua.

Capítulo I - Parte I

Escuro como breu… apenas uma janela ao fundo deixava entrar a claridade mortiça do luar pelas frestas da persiana. De repente, um ruído de uma porta bater ao fundo. Vozes sussurrantes, uma gargalhada, vozes a sussurrar… de repente um grito!! Visão tremida, uma voz a gritar:
- Dr. Indiana, acorde! Disse uma voz eufórica, ao mesmo tempo que sacudia um homem com cerca de 1,80m, louro, de olhos verdes e com barba de três dias, que estava deitado num saco-cama térmico vermelho, no interior de uma tenda verde. “Outra vez o mesmo sonho.. Raios!!” pensou o “Dr. Indiana”. Aquele sonho perseguia-o desde que detinha consciência. Embora não fosse recorrente, não era um sonho do qual gostasse muito.
- Hum… Larga-me!! Para quê todo esta histeria? Respondeu o “Dr. Indiana”, cujo nome real era Paul Crones, um arqueólogo de 32 anos, sem qualquer tipo de reputação como grande nome da arqueologia. Trabalhava para a Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Vivia já há alguns anos na dúvida de ter escolhido o emprego certo. Paul olhou para fora da tenda. Escuro como breu.
- Encontrámos algo!
- Mas é assim tão importante para me acordarem? – Disse Paul, olhando para o despertador junto ao seu saco-cama, constatando, incrédulo, que eram 3h da manhã. É o lado negativo de se trabalhar com arqueólogos recém-licenciados de 24 anos. Tudo era uma novidade para eles, que viviam na ânsia de encontrar algo importante, trabalhando, por turnos, de noite e de dia (apesar das baixas temperatura sentidas naquela região à noite) à revelia de Paul.
- Se lhe dissesse que encontrámos aqui, a poucos quilómetros do vale das rainhas – Encontravam-se, de facto, em pleno Egipto, num estágio de fim de curso organizado por várias universidades inglesas e americanas. Paul tinha sido requisitado para o monitorizar sozinho, e, apesar das suas queixas relativamente a este facto, e das condições em que trabalhavam não serem as ideais (preferia a instalação de contentores próprios para o alojamento, à semelhança de outras equipas, em vez das tendas onde dormiam) não tinha recusado o convite. “Afinal não é todos os dias que somos convidados para uma viagem ao Egipto com tudo pago” pensou – vestígios que nada têm a ver com o antigo Egipto, o que me diria?
- Que vocês, principiantes, excitam-se muito, por, provavelmente, algo que algum turista perdeu numa visita.
- Quando o Dr. ver do que se trata, vai ficar tão eufórico quanto nós!